Crônicas de família
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Minha Mãe e Eu
Não me pergunte o dia, não vou me lembrar, nem o ano, tampouco. Me lembro da tarde, da cena, eu e minha mãe, ao pé do grande rádio de madeira, escutando sabe-se lá qual capítulo da novela Couvades, na rádio Clube de Pernambuco. Por que me lembro com tanta nitidez daquela cena? Nós duas, uma… Continue reading
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A Crônica do Destempo
Nos calendários, nas memórias, mais um ano que se acaba, com sua trilha sonora a tocar vorazmente nas máquinas registradoras, o concerto dos minutos, dos dias, das horas, dos acidentes, dos negócios, dos abraços cheios de um misto de alegria e de nostálgica saudade. Medo? Que palavra é essa que se mistura à receita do… Continue reading
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Do Meu Diário Íntimo para Gabi
Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Você segurando minha mão, você me conduzindo pela porta leste, seus olhos maravilhados com o brilho das velas, sua voz a espalhar seus pequenos diamantes entre os elementais, cada um disputando aqueles farelos deliciosos de sílabas,grandes espirais do seu riso limpo e cristalino, que você mandou… Continue reading
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Crônica para meu Pai
Venha me ditar a crônica que eu não sei escrever, porque todas as palavras que tenho são pesos mortos para a minha saudade. Venha sentar-se comigo na longa mesa de madeira da sala de jantar, a velha bacia de zinco entre nós, pesada das vagens de feijão verde, que iremos debulhando devagar, enquanto você conta… Continue reading
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Os Gestos da Minha Mãe
As vezes, no meio da manhã, minha mãe lavava os cabelos e depois ia secá-los ao sol. Ali por perto, eu ficava observando o ir e vir do pente grande naqueles cabelos, e, em pensamento, tocava naqueles fios lisos e claros, percorria com dedos da minha imaginação, a onda suave a escorrer cintura abaixo, e… Continue reading
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O Natal de Gabi
Gabi, minha neta de nove anos teve um natal tranquilo. Ganhou seus presentes, tocou violino para a família reunida, executando com maestria o clássico “Hoje a Noite é Bela”. No domingo, 22 de dezembro, conversando comigo, Gabi confessou que somente uma coisa iria faltar no seu natal: Não haveria neve. Pensamos sobre o assunto e… Continue reading
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Dia do Pai
(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net) Domingo, 8 de agosto de 2004,E uma chuva de agosto a batucar suas sílabas na minha janela. experimento de escutar as águas, ruído branco, líquida saudade escorrendo por entre as folhas das árvores, ensaio de beijo a revolver a terra, perto da calçada, onde a lata… Continue reading
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Jantar a Doiis
(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net) Sentada, sozinha, na minha sala de jantar, comia satisfeita minhas adoráveis rodelas de inhame com peito de frango assado, quando de repente ele veio sem aviso, vestido de distância,e como quem pega ao acaso um pedaço de pão, recomeçou aquela nossa conversa de tanto tempo, conversa… Continue reading
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a Essência do “Farninzim”
(Este post foi publicado originalmente em www.joanabelarmino.zip.net) As vezes, no meio da tarde, minha mãe soltava uma de suas frases históricas, enquanto varria com virulência os ciscos da nossa infância. As frases não tinham nada de retórica; pequenos queixumes embrulhados em poucas palavras; O mais importante naquela pequena trouxa de pronomes, adjetivos e verbos… Continue reading
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Vigília
(Este post foi publicado originalmente em http://www.joanabelarmino.zip.net) Sexta-feira, 2 de dezembro, e, de repente, como uma picada na língua, uma saudade imensa do meu pai. A lembrança mais forte é a dos tempos em que ele era segurança noturno da Concisa. Vigia das suas próprias lembranças, no silêncio das noites, à espreita do que vinha… Continue reading
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O longo aboio
Quando eu e o meu pai deixamos de nos falar, naquela semana de maio de 1993, ele não passava de um amontoado de células, músculos e pele, encharcados de medicamentos, na UTI do hospital de Bayeux, meu pai a tocar às portas da eternidade, eu, presa a um profundo sentimento de perda, desenraizamento, saudade antecipada.… Continue reading
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Se você me ouvisse
Minha homenagem a Mayara Maia, uma longa carta, escrita com poucas palavras, algumas em cada um desses dias em que esteve em coma. Uma carta para que seus familiares guardem no coração, já que o coração da querida Mayara parou de bater. Continue reading