Barrados no Braille

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Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Você segurando minha mão, você me conduzindo pela porta leste, seus olhos maravilhados com o brilho das velas, sua voz a espalhar seus pequenos diamantes entre os elementais, cada um disputando aqueles farelos deliciosos de sílabas,grandes espirais do seu riso limpo e cristalino, que você mandou para a lua nova,sem sequer suspeitar da rapinagem que o vento fazia, dos bocados de riso seu que caíam das bordas do espaço.

Fizemos nossa pequena jornada com cuidado, seus pés à frente dos meus, pousando delicadamente no capim cidreira, nos pequenos montes de terra. Desviamos o cume do velho formigueiro e, um passo atrás do seu passo, meu dedão esquerdo foi novamente vítima das formigas guardiãs, desconfiadas do meu esmalte quase sem cor.

Nossa marcha, a desenhar na terra do quintal a trama da nossa dança íntima. E, ao modo dos pequenos tambores, a contar para a terra o segredo do nosso amor.

Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Nós duas plantadas junto da pedra da nossa escolha, a suavidade do seu abraço a tecer para mim toda a circularidade da sua ternura, tão íntegra, tão doce, tão plena.

Naquele instante, escutei todas as portas de dentro a se destrancarem, e deixei-me inundar pela tepidez do calor da sua pele, pelo pulsar suave do seu coração,e juro, briguei feio com o vento para guardar só pra mim, o cheiro bom do seu cabelo.

Naquele instante, por arte da chama daquela vela amarela que você escolheu para si, vi toda a delicadeza dos elos que nos ligam.E naquele lugar só nosso, sem relógios nem agendas, com a lua nova a preparar sua carta de intenções de luz, refizemos nossa jura de eterno querer bem,que se renovará, a cada lua nova.

E você sabe, porque não deve haver segredos entre nós, vou lhe contar uma coisa que eu descobri, antes das minhas portas se fecharem para o sono da noite. A lua nova tem inveja de nós!E escuto você, já de dentro do sonho, esfarelando meu segredo com suas palavras sábias inundadas de riso: E nós, você e eu, temos inveja da lua cheia!

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A autora

Uma ilustração digital em close-up de Joana Belarmino sorridente com cabelos castanhos um pouco ondulados. Ela tem um sorriso caloroso e olhos castanhos. No topo da cabeça, ela usa óculos de sol pretos e um brinco de pérola pendente está visível na orelha esquerda. O estilo é de uma pintura digital suave e detalhada.

Joana Belarmino

Escritora e cronista

Escreve há mais de dez anos sobre deficiência visual, acessibilidade e as cidades que ainda precisamos construir.