
Ontem fui dormir tarde, depois da uma da manhã. Então já era hoje, e o hoje acentua o que é urgente, inadiável.
Surfando no Youtube, fui atraída e capturada por uma entrevista com a jornalista Eliane Brum (link ao final desse texto).
Eliane tem uma voz doce, quase tímida. Articula suas frases com reticências, pausas para pensar, mas aqui temos uma fala cheia de emoção, de verdade, de certeza naquilo que ela acredita.
O tema central da entrevista é a sua história de vida, seu ingresso no jornalismo, o modo como o seu corpo, a sua tarefa de investigar, foram adentrando os meandros de uma realidade que a fascinou, desde os primeiros instantes da sua atuação profissional.
No centro de tudo estavam as pessoas que são invisíveis nesta nossa sociedade. Sua primeira reportagem nunca foi publicada, contou ela sorrindo. Entrevistou uma prostituta, adentrando seu lugar de trabalho, onde um cafetão e a entrevistada estavam nus.
Daquela entrevista brotou a certeza do que ela queria. Queria ser jornalista sim, e já tinha as chaves para entrar em qualquer lugar: sua caneta e seu bloquinho de anotações. E assim nasceu Eliane Brum, a jornalista, falando com plantas, com gente anônima, falando com bichos, cavalos de cabo de vassoura, falando , com sua voz suave, para uma civilização completamente divorciada da natureza.
Os pais de Eliane Brum, como seus avós, migraram da Itália, fugindo da guerra. No pequeno povoado onde se instalaram, no Rio Grande do Sul, crianças, mulheres e homens brancos como o seu pai, aprenderam a ler e escrever por uma professora negra.
“Eu também”, contou ela. Minha primeira professora Luzia era uma mulher negra. Todas as vezes, quando vai a Injuí, deposita flores no túmulo de Luzia, assim como fazia seu pai, enquanto viveu.
E foi por volta de 2010/2012 que a pauta da crise climática abraçou de vez a pauta jornalística de Eliane Brum. Escutou as vozes dos povos indígenas, visitou lugares transtornados pelo modelo civilizatório atual. Ouviu Bruno Latour, David Coppenawa, outras vozes latino americanas e entendeu o que queria. Não. Não esperaria o horror, a catástrofe, a anunciação do fim. Não ficaria vendo TV e streamings, confortavelmente sentada no seu sofá. Iria para a Amazônia, para as ilhas do Xingu, e escavaria um novo modo de escuta, um novo modo de fazer #jornalismo.
#NovosJornalismos. Eliane foi aprender isso com a floresta dizimada pela hidrelétrica de Belo Monte. Foi escutar as vozes dos povos que foram arrancados irremediavelmente do seu lugar primordial, onde haviam construído suas “riquezas”, respeitando e convivendo com a floresta.
Eliane saiu da sua vida confortável, e foi viver no Xingu. Foi escutar a floresta, entrevistar bichos, plantas, escutou os fungos, sentiu seu brilho, reconheceu seu estatuto de propriedade, pois eles vivem no planeta há milhões e milhões de anos.
Dessa escuta, germinou e brotou o projeto #sumauma.com, onde se semeia uma variedade tão grande de vivências, de formações, de aprendizados, que posso afirmar, ali está um enclave para #Novos Jornalismos.
Das falas fortes de Eliane Brum, ecoadas na sua voz suave, destaco estas: “O centro do mundo não se acha na Europa, nos Estados Unidos da América. O centro do mundo está onde vive a maioria das populações. O centro do mundo está na Amazônia, nos enclaves florestais, na faina dos camponeses”.
E esta: “A floresta não é uma entidade. A floresta é um conjunto de relações, um encadeamento, onde tudo é cooperação”. Claro que estou traduzindo com minhas palavras, o núcleo do que ela pensa.
Se, para Eliane Brum, os #NovosJornalismos já não são uma utopia, digo que o jornalismo convencional vive na superfície de um mundo gestado por uma coleção de acontecimentos, fabricados ou editados, a voz única do modelo civilizatório, que instrumentaliza em favor do capital, as instituições sociais, o poder político e as agendas dos indivíduos.
Nessa geografia desigual, as periferias são os enclaves onde habitam rótulos como criminalidade, bandidagem, estatísticas pavorosas sobre tráfico, feminicídios, alimentando a gulosa ceifadeira do jornalismo comercial.
Quando a entrevista acabou, eu era presa de um mix de sentimentos: gratidão, angústia, tristeza pelo que legaremos às gerações futuras. E senti vontade de abraçar Eliane Brum, sentindo nesse abraço, como se fôssemos árvores, irmãs, escutando a fala dos fungos.
Assista a entrevista em: https://youtu.be/Gm35gojMSnE?si=TBYiUgSesms4wTKs&t=22

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