Barrados no Braille

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Hoje recebi um e-mail de uma laranja pocã. Foi assim: Recebi minhas frutas das compras de sexta-feira, e, depois de higienizar todas, resolvi me sentar para comer uma laranja pocã.

Estranhei que ela se apresentasse com uma casca muito mole, mas sei que essa característica é própria das laranjas pocã. E antes que você pense que laranjas pocã usam banda larga, deixe eu lhe explicar:

O software das laranjas pocã é menos convencional. Elas não precisam de provedores. O seu software envolve duas rotinas simples: Descascar/comer.

Pois bem, descasquei a fruta, e logo ao primeiro gomo, apareceu a mensagem, numa cor cinza: “Hoje não haverá suco”.

Decodificar um mail de uma laranja pocã é simples. Você vai decifrando as sílabas por entre a língua e os dentes.

Decifrei a mensagem e pensei otimista: O suco virá nos próximos gomos. Mas qual! Em todos os gomos, a mesma mensagem se apresentou, em sua cor cinza:”hoje não haverá suco”!

No começo eu quis protestar, mas aos poucos, apossou-se de mim uma tristeza resignada. Num planeta onde não temos cuidado com nossas florestas, com nosssos rios; num planeta onde nossos oceanos são verdadeiros monturos gigantescos de plásticos e todo tipo de poluição; num planeta onde bifes suculentos são forjados numa indústria cruel e desumana; num planeta onde todos os tipos de substâncias químicas ameaçam a vida; num planeta onde o egoísmo é a principal forma de convivência entre os humanos, nesse planeta, as laranjas pocã podem revoltar-se, podem nos negar seu suco saboroso, podem nos mandar e-mails telegráficos, e-mails redundantes,numa espécie de alerta para o que estamos fazendo com nossa mãe Gaia.

Em cada gomo, li a mensagem da laranja pocã, e numa reverência à sua casca rugosa, lhe pedi perdão. Lhe pedi perdão e agradeci pela mensagem. Emgoli o seco daqueles gomos e vim aqui, contar isso a você.

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A autora

Uma ilustração digital em close-up de Joana Belarmino sorridente com cabelos castanhos um pouco ondulados. Ela tem um sorriso caloroso e olhos castanhos. No topo da cabeça, ela usa óculos de sol pretos e um brinco de pérola pendente está visível na orelha esquerda. O estilo é de uma pintura digital suave e detalhada.

Joana Belarmino

Escritora e cronista

Escreve há mais de dez anos sobre deficiência visual, acessibilidade e as cidades que ainda precisamos construir.