Barrados no Braille

Crônicas, crítica de mídia, links e muito mais.

As manchetes midiáticasdesse meio de semana, rasas, superficiais, em alto volume, dão conta de vidraças quebradas, furtos, focos de incêndio, ministérios evacuados às pressas, servidores públicos amedrontados e perplexos.

Não, não vou aplaudir esses episódios, tampouco quero explorar as suas nefastas razões. Infiltrados teriam tentado desqualificar a manifestação pacífica com dezenas de milhares de trabalhadores, sindicalistas, movimentos sociais?

O discurso ambíguo da comentarista Míriam Leitão, no Bom Dia Brasil da quinta-feira, expressou claramente o tom azedo com que os sindicalistas são tratados no jornalismo global. Segundo Míriam, os manifestantes foram à Brasília financiados pelo dinheiro do imposto sindical, e agora, disse ela, será com o dinheiro dos nossos impostos que os estragos serão reparados. Digo que o discurso é ambíguo, porque a pouco mais de dez dias, Míriam Leitão louvava o governo Temer, agora ecoa suas mazelas e fraquezas. O que não muda, na sua fala, assim como nas inserções de Alexandre Garcia, William Bonner e tantos outros globais, é o tom de beligerância com respeito aos movimentos de trabalhadores, sobretudo àqueles ligados aos partidos de esquerda.

Enquanto o país assistia aos fatos quentes de Brasília, ocorria no Pará, uma chacina com dez trabalhadores mortos. Seguindo seu modus operandi, a Globo somente ouviu a voz das autoridades e dos policiais. A culpa, como sempre, recaiu sobre os posseiros, mas a eles não foi dada defesa, nem direito de resposta.

Em verdade vos digo, pouco me importa essas vidraças quebradas, pouco me interessa essa ação enraivecida de pequenos grupos encapuzados. O que me entristece, o que me faz acordar todos os dias com a angústia pesando no peito, é ver o meu país desmontado por dentro, quebrado, fraturado nos seus princípios, de ética, de moralidade, de respeito ao outro, de garantia dos direitos sociais e da cidadania.

O país vai sendo desmontado por dentro das suas estruturas. Não há ruídos de bombas, não se escuta o estilhaçar de vidraças, tampouco o estampido das automáticas. O desmonte é silencioso e rápido. A cada dia assistimos cair por terra um pedaço de floresta preservada, uma política social conquistada à duras penas, um instrumento de negociação e de participação popular.

E enquanto essas vidraças não são reparadas, olhemos bem para dentro desse ministério vazio. Vazio de políticas culturais, de diálogo, de música e de arte genuinamente brasileira, vazio de comando, num país sem comando.

Da boca pra fora, a retórica do combate à corrupção. Dentro dos gabinetes, nos porões e garagens, as tramas, as negociatas, a conspirata permanente e subterrânea que preside o jogo político desde sempre.

A metralhadora midiática prossegue no trabalho apressado da implosão. Aniquilar as esquerdas, e agora, aniquilar o governo Temer o qual ela colocou no poder. Retomar a direção das eleições indiretas, bater à prego e martelo, a política e os interesses do capital. Por que hei de lamentar vidraças quebradas, se tenho um país todo de cabeça baixa, com vergonha de si próprio?

 

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A autora

Uma ilustração digital em close-up de Joana Belarmino sorridente com cabelos castanhos um pouco ondulados. Ela tem um sorriso caloroso e olhos castanhos. No topo da cabeça, ela usa óculos de sol pretos e um brinco de pérola pendente está visível na orelha esquerda. O estilo é de uma pintura digital suave e detalhada.

Joana Belarmino

Escritora e cronista

Escreve há mais de dez anos sobre deficiência visual, acessibilidade e as cidades que ainda precisamos construir.