Barrados no Braille

Crônicas, crítica de mídia, links e muito mais.

Eu não era propriamente uma criança alegre. Tinha muita energia guardada, e, uma timidez absurda, o que as vezes me fazia ficar paralisada. Havia poucas coisas que me deixavam completamente em paz, feliz, entregue. Uma dessas coisas eram os livros.

Livros, na minha infância, eram sinônimos para grandes maços de papéis encadernados em capas muito duras, folhas completamente crivadas de sulcos, sulcos que eu percorria com minhas mãos pequenas, as palavras fazendo sentido na polpa dos meus dedos indicadores.

Com o tempo aprendi a identificar em mim mesma uma espécie de fome, suave, funda, inadiável. Era fome de leitura.

A frase que mais se ouvia em torno de mim, dita pelos adultos, era: Essa menina é magra de tanto ler!

Lia muito mesmo. Por dias inteiros eu me deslocava por entre as palavras, abria páginas e páginas, crivadas daqueles sulcos mágicos, e voava por mundos surpreendentes, absurdos e trágicos: De Monteiro Lobato, de José de Alencar, de escritores franceses de literatura infantil, dos clássicos da literatura universal.

De tanto ler, imaginava as vezes que de fato eu habitava o mundo literário, com suas sombras, suas quilhas de vento, suas portas entreabertas, o terror apontando-me seus dedos fantasmagóricos. Imaginava que morava naquele mundo e que estava de passagem na vida real.

O gesto da leitura, com seu conjunto de comportamentos, o silêncio, a contemplação, a associação e o encadeamento das ideias, o gesto da leitura, parece que nos oferta um passaporte para o conhecimento profundo, para um naco de humanidade que nos pertence, mas nem sempre é reconhecido por nós próprios, quando nos é negada essa possibilidade.|

Ler em braille, em tinta ou nos tablets Ler através do kindle. Nenhum suporte pode alterar essa nossa condição de ser, sujeito de leitura, entregue ao desafio de caminhar por entre as ideias, conhecer não apenas suas fontes, times, verdana, garamond, mas sentir nelas mesmas, o hálito da compreensão, do entendimento, da partilha, da comunicação.

Ler é como dar voz ao passado, ao futuro, ao tempo presente. É como abrir nossa mente, como uma casa, para abrigar ideias e dar-lhes vida, estatura, outra explicação.

Agosto chega com seus dias longos, seu lençol de frio, suas ventanias. Agosto chega com as suas letras, em tinta, em bits, em braille.

Uma resposta a “!Agosto das Letras””

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

A autora

Uma ilustração digital em close-up de Joana Belarmino sorridente com cabelos castanhos um pouco ondulados. Ela tem um sorriso caloroso e olhos castanhos. No topo da cabeça, ela usa óculos de sol pretos e um brinco de pérola pendente está visível na orelha esquerda. O estilo é de uma pintura digital suave e detalhada.

Joana Belarmino

Escritora e cronista

Escreve há mais de dez anos sobre deficiência visual, acessibilidade e as cidades que ainda precisamos construir.