Deu na Folha de São Paulo, na coluna de Pedro Diniz. Dez criadores jovens, dentro do projeto Casa dos Criadores, abasteceram a coleção verão 2015 com looks eminentemente voltados para pessoas cegas. As criações, narra a coluna, trouxeram invenções curiosas: Texturas e detalhes utilitários como bolsos para celular, elásticos em vez de botões e tecidos diferentes para distinguir os lados das roupas.
O mais relevante está dito no segundo parágrafo da coluna: “As criações foram feitas em parceria com a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo com o propósito de atender às necessidades desse público.
Que público seria esse? Para que tipo de pessoa cega esse new-look foi criado? Com a ajuda de uma secretaria dedicada ao atendimento das pessoas com deficiência, a nova moda foi idealizada sob a égide de um paradigma muito antigo. Um paradigma que pensa as pessoas cegas como estando fechadas em um mundo à parte, um mundo de dependência e de necessidades as mais fundamentais: ajuda para se vestir sozinho, sem enganos como o de colocar a roupa pelo avesso, ou com a frente virada para trás.
Os detalhes em alto relevo do new-look, provavelmente querem trazer um estimulozinho a mais para alimentar a suposta vontade que o cego tem, de tatear e tatear, a fim de experimentar em sua própria roupa sensações táteis.
Valeria a pena convidar esses dez criadores a fazerem um tour pelas listas e fóruns de discussões de pessoas cegas. Ideias muito engraçadas poderiam ter alimentado as criações. Um babador com chip, que informasse aos berros à mãe cega, “isto é um babadooooooor, viu Uma cueca de seda, com chip embutido, informando a parte da frente e a de trás.
Brincadeiras à parte, e confesso que a discussão já me rendeu boas risadas, há aqui uma realidade subjacente a ser avaliada. Coisas curiosas são criadas, para chamar a atenção para o universo acessível, entretanto, não passam de pequenos truques para adiar a verdadeira acessibilidade que precisa ser efetivada nas cidades, nos bens de consumo, nos serviços e equipamentos públicos e privados nos estados e municípios do país.
Essa efetivação, exige um diálogo de mão dupla. Não bastam as boas intenções, há que se dialogar com os consumidores diretos desses produtos, testá-los com um usuário cego de verdade, envolver-se na agenda das reais necessidades dessas pessoas.
Antes que digam que sou contra as criações que apelam para signos do vintage, advirto-os que gosto muito dessa hibridização entre o novo e o antigo. No caso aqui, essa nova moda não tem consumidores, a não ser que se queira encenar uma peça teatral, ou uma ópera, para retratar um mundo inventado, de pessoas cegas inventadas no caldo da fraqueza, da dependência, da inabilidade absoluta.
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