Barrados no Braille

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A Silenciosa Tempestade

Joana Belarmino
As ondas do meu silêncio, indo e vindo, são como lágrimas, caindo no mar de dentro. Lágrimas que vão se juntando, compondo a sinfonia triste dessa tempestade de não poder ter te dito adeus.
Não sei se você disse adeus A alguém. Acho que despedidas não estavam nos seus planos agora.
Você lutou bravamente por cada átimo da sua vida. Sua vida foi de luta. Sempre.
Seu corpo magro, altivo, sua voz ao mesmo tempo terna e firme, era o território da sua luta.
E agora, enquanto minhas lágrimas desfilam silenciosas para o centro do meu oceano triste, recomponho as lembranças do que fizemos juntos.
Não fizemos tanto assim. Eu, junto à linha do equador, você, numa extremidade da região sul, mesmo assim fizemos coisas muito significativas juntos.
Você se lembra da vigília de Curitiba em 2019? Naqueles dias ainda estava conosco o querido Flávio, que depois partiu, sem despedidas.
Se você me perguntasse agora, eu diria que aqueles foram os melhores dias da nossa vida. Junto com muitos outros companheiros, demos bom dia, boa tarde e boa noite ao presidente Lula, enclausurado injustamente na “república de Curitiba”. Escutamos o canto jovem dos indígenas, comemos da janta do povo do campo.
Bebemos cerveja gelada, você ficou bêbado de alegria.
Sim, nossos encontros não foram muitos, mas foram todos muito significativos.
Vou postar aquela foto que Lourenço fez de nós, quando bebíamos aquele vinho que você levou para nós, no restaurante do hotel em Porto Alegre, antes daquela enchente terrível.
Aquela sim, foi uma tempestade bravia, ceifando vidas, casas, sonhos, tendo como símbolo um cavalo sobre um teto, segurando o seu medo com unhas e dentes.
Me lembro que você sempre apreciou minhas crônicas. Hoje eu nem chamaria essas palavras juntadas à força da tristeza de crônica. Hoje eu só escrevo para acompanhar o desfile das minhas lágrimas, compondo essa silenciosa tempestade do mar de dentro do meu coração.



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